A cor de céu

A ilha era sonho durante todo o ano, mas, nas férias, tinha cheiro de sal e gosto de caju. O sol de meio-dia se escondia detrás das nuvens para deixá-la brilhar e ela despontava verdinha no mar azul, matéria de poema, mistério nu, além da espuma branca que dançava ao redor da balsa. O chapéu de dona Fátima se alegrava tanto que saía voando para proclamar as boas novas ao oceano, e Tininha só não ia atrás dele porque a mãe não deixava, apertava-a no peito de um jeito que eram dois corações batendo em sincronia. Nessas horas, seu Gonçalo lascava um sorriso, os olhos apertados por detrás dos óculos escuros.


— Vovô —Tininha chamava, cutucando o velho com a ponta dos dedos. — Já estamos chegando?


— Já, já — ele respondia, com jeito do menino que um dia fora.


Era pisar na praia, nas algas úmidas que se encaracolavam sobre pedras, lisas ou rugosas, rebrilhantes, e correr até a casa, lançando areia fofa para todo lado. A cerca era da cor do céu e guardava todas as memórias preciosas da infância. O cajueiro de tronco retorcido, bom para escalar. As castanhas torradinhas que saíam do forno. Pão quentinho com manteiga e ovo. Moqueca de peixe e feijão de leite.


Tão bem chegavam, já arriavam a velha esteira de palha sob o toldo, pontinho luminoso na beira-mar. Tininha fiava o bipe do pai na cintura e partia a mil na bicicleta pelo terreno de barro vermelho. Seu Gonçalo reunia os colegas de trabalho para jogar futebol na quadra. Dona Fátima encontrava um chapéu novo e ia comentar a coisa toda. Papai e mamãe ficavam assistindo as ondas, o vai-e-vem que leva o tempo e traz saudade.


Hoje em dia, é tudo história para contar. Tininha cresceu, não sem dar muito trabalho na adolescência; seu Gonçalo se aposentou e mergulhou em águas cristalinas após muita luta no quarto de oração; e dona Fátima não se lembra mais dos contornos da ilha, mas se recorda bem do quentinho sob o sol de verão. No mais, a correria da terra substituiu a calmaria do mar. A ilha voltou a ser sonho. Expectativa além dos dias, cerca azul que declama a poesia: o aroma da vida, o sabor do eterno, a cor do céu e o destino para o qual irão zarpar.

Giovanna Souza Daniel

Giovanna é cristã, formada em teologia e mora em Salvador/BA. Escreve desde a infância, especialmente no gênero de fantasia, e é integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”.
Instagram: @gigiazous.

2 respostas para “A cor de céu”

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    Josiamar Silva Daniel
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    Priscila Pereira

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