Um esquete beckettiano

Lugar indiscernível. Entardecer. Mesa ao lado.
Sentada num banco isolado, Lavínia tenta calçar os sapatos.
Entra Estevão.
ESTEVÃO: Eu estava pensando...
LAVÍNIA: Que droga.
ESTEVÃO: O que foi?
LAVÍNIA: Esses malditos sapatos parecem ter encolhido da noite pro dia.
ESTEVÃO: Oh, que pena. Quer usar os meus?
LAVÍNIA: O que você estava pensando?
ESTEVÃO: Eles são confortáveis.
LAVÍNIA: Você chegou dizendo que...
ESTEVÃO: Ah, eu não lembro. Não lembro mesmo.
LAVÍNIA: Hmm...
ESTEVÃO: Sei que estava pensando...
Ela se levanta, com dor e os dois caminham devagar, para lá e para cá.
LAVÍNIA: Não devia ser nada importante
ESTEVÃO: Eu estava pensando...
LAVÍNIA: Ah, lembrou?
ESTEVÃO: Do quê?
LAVÍNIA: Do que estava pensando quando chegou aqui.
ESTEVÃO: Eu? Não.
LAVÍNIA: Ora essa. Então...
ESTEVÃO: Eu estava pensando agora, neste instante...
LAVÍNIA: Ah! O que estava pensando?
ESTEVÃO: Esqueci.
LAVÍNIA: Nossa.
ESTEVÃO: Você me interrompeu.
LAVÍNIA: Desculpe.
ESTEVÃO: Tudo bem.
Breve silêncio.
ESTEVÃO: Que horas são?
LAVÍNIA: (olhando para cima) Não sei.
ESTEVÃO: Já comeu?
LAVÍNIA: Não.
ESTEVÃO: Está com fome?
LAVÍNIA: Estou.
ESTEVÃO: Então deve ser hora de comer. O que acha?
LAVÍNIA: Faz sentido.
ESTEVÃO: É sempre hora de alguma coisa, não?!
LAVÍNIA: Hmm...
ESTEVÃO: Venha, vamos comer.
(Sentam-se à mesa ao lado)
LAVÍNIA: Sim, acho que sim.
ESTEVÃO: Oi?
LAVÍNIA: Acho que você está certo. Sempre é hora de alguma coisa. Ou sempre algo está prestes a acontecer. Estamos sempre na i... imi... iminência. É sempre hora de alguma coisa...
ESTEVÃO: Eu estava pensando...
LAVÍNIA se controla e não pergunta, apenas acena para que Estevão continue...
ESTEVÃO: Eu não sei o que estou fazendo aqui.
LAVÍNIA: Era nisso que você estava pensando quando chegou aqui?
ESTEVÃO: Eu? Acho que não.
LAVÍNIA: E agora há pouco, da segunda vez?
ESTEVÃO: Teve uma segunda vez? Nossa, eu nem lembro.
LAVÍNIA: Então pode ser que você estivesse pensando nisso esse tempo todo.
ESTEVÃO: Nisso o quê?
LAVÍNIA: Nisso que você estava pensando agora.
ESTEVÃO: Ah. Você precisa parar com isso! Eu já me esqueci em que estava pensando.
LAVÍNIA: Você disse que estava pensando...
ESTEVÃO: Em quê?
LAVÍNIA: ... que não sabe o que está fazendo aqui.
ESTEVÃO: Ah, sim. É possível.
LAVÍNIA: E descobriu?
ESTEVÃO: Se descobri em que eu estava pensando?
LAVÍNIA: Não! O que está fazendo aqui!
ESTEVÃO: Eu não sei o que estou fazendo aqui.
LAVÍNIA: Ah.
ESTEVÃO: E você?
LAVÍNIA: O que tem eu?
ESTEVÃO: O que está fazendo aqui?
LAVÍNIA: Bom...
ESTEVÃO: Hmm...
LAVÍNIA: Eu não sei (vira o rosto devagar, fica estática e pasma).
Um minuto em silêncio.
ESTEVÃO: O que será que devemos fazer agora?
LAVÍNIA balança a cabeça, tristonha.
ESTEVÃO: Será que deveríamos nos apaixonar?
LAVÍNIA: (vira-se, confusa) Por que acha isso?
ESTEVÃO: Não sei... é que estamos só nós dois aqui.
LAVÍNIA: Hmm...
ESTEVÃO: E tem essa mesa. Essas velas.
LAVÍNIA: Sim, mas...
ESTEVÃO: Mas o quê?
Lavínia come. Estevão come também.
Outro minuto em silêncio.
LAVÍNIA: Nós nos conhecemos?
Estevão continua mastigando normalmente.
LAVÍNIA: Desculpe, eu não tenho certeza se te conheço.
ESTEVÃO: Eu estava com a mesma impressão.
Continuam comendo.
ESTEVÃO: Eu tenho a impressão de te conhecer há bastante tempo.
LAVÍNIA: Déjà vu? Ou...
ESTEVÃO: Não sei. Mas eu sinto que já te vi e...
Lavínia acena com a cabeça, pedindo para que continue.
ESTEVÃO: Sinto que já te vi e, aliás... aliás...
O mesmo aceno de Lavínia.
ESTEVÃO: ... e aliás, já te ofereci sapatos, já comemos, já nos apaixonamos, já dançamos em círculo...
LAVÍNIA: Hmm... isso não me soa estranho.
Mais um minuto em silêncio.
ESTEVÃO: De onde será que nos conhecemos?
LAVÍNIA: Não sei.
ESTEVÃO: Seria isso um sonho? Um sonho recorrente?
LAVÍNIA: Quem de nós dois estaria sonhando?
ESTEVÃO: Que lugar é esse?
LAVÍNIA: (olhando para lá e para cá) Não sei.
ESTEVÃO: Ah! Acho que lembrei, sim, lembrei!!
Lavínia segura a respiração.
ESTEVÃO: Lembrei o que estava pensando agora há pouco. Eu estava pensando...
Ela o interroga com um gesto.
ESTEVÃO: No que eu estava pensando...
LAVÍNIA: E no que estava pensando?
ESTEVÃO: No que eu estava pensando.
LAVÍNIA: Antes?
ESTEVÃO: Isso.
LAVÍNIA: Ah, você lembrou então!? E no que estava pensando antes?
ESTEVÃO: No que eu estava pensando quando cheguei aqui...
LAVÍNIA: Que era...
ESTEVÃO: O que eu estava pensando antes...
LAVÍNIA: Ontem?
ESTEVÃO: Talvez. Antes. Que horas são?
Lavínia faz que não com a cabeça.
ESTEVÃO: Que dia é hoje? Que ano é?
LAVÍNIA: Não sei.
Silêncio.
ESTEVÃO: Eu pareço...
LAVÍNIA: O quê?
ESTEVÃO: Nada.
LAVÍNIA: Diga.
ESTEVÃO: Pareço... fadado a não lembrar meus pensamentos, o primeiro, o início...
LAVÍNIA: Hmm...
ESTEVÃO: Seria hora de dançar agora?
LAVÍNIA: Dançar? Talvez.
Ambos dançam em círculo.
LAVÍNIA: E agora, o que é iminente?
ESTEVÃO: Não sei. Acho que devemos esperar.
LAVÍNIA: Esperar o quê?
ESTEVÃO: Nada.
LAVÍNIA: Ah, sim.
Ambos se sentam no banco do início.
Silêncio de cinco minutos.
ESTEVÃO: Qual seu nome?
LAVÍNIA: (para e pensa por um minuto...) La... La... Vi... Laví... Lavínia. E o seu?
ESTEVÃO: Es-te-vão...
Silêncio.
ESTEVÃO: ... eu acho.
Silêncio.
Estevão se levanta e sai.
Sentada no banco isolado, Lavínia tenta calçar os sapatos.
Entra Estevão.
ESTEVÃO: Eu estava pensando...
LAVÍNIA: Que droga.
ESTEVÃO: O que foi?
LAVÍNIA: Esses malditos sapatos parecem ter encolhido da noite pro...
Ouvem burburinhos e se assustam.
ESTEVÃO: E esses sons? Ouve?
LAVÍNIA: Sim, sim! Será um de nós a sonhar?
ESTEVÃO: É possível.
LAVÍNIA: Provável.
ESTEVÃO: Certo.
LAVÍNIA: Indubitável.
Ambos se levantam e saem.
As pessoas se acomodam nas cadeiras. Um sinal musical soa baixo e breve. Silêncio no recinto. As cortinas se abrem.
Não há ninguém.

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