O país que mora na espera

Rafaella Salles

O Brasil acorda antes do sol, mas nem sempre levanta. Fica ali, sentado na beira da cama, coçando os olhos, esperando o dia explicar a si mesmo. Há um tempo próprio nas manhãs brasileiras: o tempo do café esfriando enquanto a esperança ainda ferve.

Na calçada, um homem varre folhas que voltarão amanhã. Ele sabe disso, mas varre mesmo assim. É uma forma de oração. Em cada vassourada, um pedido mudo de que a vida, pelo menos hoje, faça menos bagunça. O país começa aí nesse gesto pequeno, repetido, invisível.

O Brasil é um lugar onde tudo parece provisório, menos a espera. Espera-se o ônibus, o salário, a resposta, a chuva, o milagre. Espera-se crescer, melhorar, mudar. Há gente que passa a vida inteira sentada na sala de embarque do futuro, segurando uma senha que nunca é chamada. Ainda assim, ninguém vai embora.

No meio da tarde, o sol pesa como uma verdade que não dá mais para ignorar. As cidades rangem. Prédios respiram cansaço. Corpos atravessam o dia como quem atravessa um rio sem ponte, equilibrando sonhos na cabeça para não molhar. O Brasil anda assim: meio torto, mas andando.

Há uma beleza estranha nisso. Um lirismo que não se ensina, apenas sobrevive. A mulher que ri alto no ponto de ônibus, o vendedor que chama “meu amor” quem nunca viu, a criança que brinca com nada e ainda assim inventa tudo. O país insiste em florescer até no concreto mais duro.

À noite, o Brasil baixa o volume e acende as janelas. Dentro delas, histórias fervem em panelas simples. Gente que ama errado, que acredita demais, que cai e levanta sem aplauso. Ninguém escreve essas histórias nos livros, mas são elas que sustentam o chão.

Talvez o Brasil seja isso: um texto inacabado, escrito a lápis, com rasuras, margens apertadas e uma teimosia bonita de continuar. Um país que erra a gramática, mas acerta o sentimento. Que tropeça nas próprias frases, mas não abandona a narrativa.

E amanhã, quando o sol nascer de novo, o Brasil vai acordar antes dele. Talvez não levante de imediato. Talvez fique mais um pouco na beira da cama. Mas vai continuar ali esperando, sim; não por falta de coragem, mas porque acredita, no fundo, que ainda há uma frase melhor por escrever.


Rafaella é carioca e mora em Brasília. Apaixonada por política, presbiteriana e integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”. Instagram: @rafaellasalles__.

6 respostas para “O país que mora na espera”

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