Priscila Pereira
Depois de algum tempo sentada em um tronco meio tombado, olhando para as folhas secas que se desprendiam e caíam lentamente das árvores, Vanessa notou que o sol já havia baixado e que o ocaso dava um aspecto melancólico ao bosque. Suspirou e levantou, ainda passeando os olhos pelas folhas. O caminho de volta para casa seria mais longo do que o normal, agora que seus passos estavam tão incertos.
A algazarra dos pássaros diminuía enquanto se preparavam para a noite e ela devia estar em casa a essa hora. Estariam esperando por ela. Eles se preocupariam. Sempre se preocupavam.
“Devia ter voltado antes”.
O bosque ia mergulhando em um silêncio profundo e palpável, que, quando quebrado por qualquer inseto ou brisa, aguçava os sentidos. As árvores roubavam toda a claridade e no chão tudo já estava imerso no escuro, mas ela sabia voltar para casa até de olhos fechados. O que incomodava era não enxergar o que podia se esgueirar pelas sombras.
“O escuro é o ambiente perfeito para o desconhecido”.
Imaginava animais nojentos e insetos nocivos esperando o momento certo para se manifestar e atacar. Iria mais rápido se pudesse, mas a lentidão dos passos era sintoma da recuperação do corpo. Era frágil, como dizia sua mãe. Frágil. Que poderia se quebrar a qualquer momento.
Um barulho de asas chamou sua atenção. Asas grandes. Batendo lentamente. Virou na direção do som a tempo de ver uma mariposa enorme, com as asas em preto e marrom, a centímetros de seu rosto. O instante pareceu congelar e ela viu claramente o corpo roliço e peludo, os olhos fragmentados e as asas escamosas com um brilho levemente metálico. Era quase do tamanho de sua cabeça.
Por instinto, colocou o braço à frente da boca e desviou a cabeça. Sentiu a mariposa pousando em seu cabelo, e mesmo sabendo que não faziam nenhum mal, não conseguiu controlar o terror que a fez gritar e sacudir a cabeça, batendo com tanta força que esmagou o bicho em seus cabelos.
Quanto mais batia e sacudia, mais aterrorizada ficava, e quando pedaços de asas começaram a cair no chão, suas pernas amoleceram e sua visão escureceu. Então sentiu o rosto contra a terra enquanto, com o restinho de visão, via o corpinho peludo se contorcendo a centímetros de distância.
Quando recuperou os sentidos, a escuridão era total. O corpo todo doía. Seus músculos estavam rígidos. A mente clareou em segundos e o terror voltou imediatamente. Sem pensar, levantou e correu. As pernas fracas faziam a corrida difícil e arrastada, mas não parou até sair do bosque e entrar na cidade.
Não ousava colocar a mão nos cabelos. Temia achar pedaços do inseto ainda lá. Só de pensar nisso, o estômago embrulhava. A respiração doía por causa da corrida e o coração estava desgovernado. Apoiou-se no poste de luz e vomitou.
Parecia ouvir o som das asas batendo ainda. Quando fechava seus olhos, podia ver claramente os do bicho, que agonizavam enquanto ela perdia os sentidos.
Chegou em casa histérica. Sua mãe ainda acordada, esperando por ela, preocupada, sabia que alguma coisa não estava certa. Tentou acalmá-la enquanto retirava os restos da mariposa de seus cabelos emaranhados.
— Calma, é só uma borboleta. Não precisa ficar assim. Calma. Respira. Isso.
A mãe não entendia. Não era só uma borboleta. Ela não ouviu as asas, não sentiu o monstro nos cabelos. Não viu ou causou sua morte.
Nos dias seguintes, Vanessa parecia completamente destruída. Não dormia, não comia, não fazia outra coisa além de chorar. Sentia a mariposa em seus cabelos mesmo depois de lavar compulsivamente a cabeça. Ouvia o som das asas em todos os lugares e via o corpinho peludo sempre que fechava os olhos. Ela permanecia no quarto o tempo todo, com as janelas trancadas, andando de um lado para o outro, sempre alerta a qualquer ruído.
— Elas vão se vingar! Tenho certeza!
— Elas quem, querida? — respondia a mãe, já acostumada com os rompantes da filha.
— As mariposas! Feche as cortinas! Elas estão me observando.
Depois de alguns dias, o cansaço venceu a vigilância constante e Vanessa adormeceu. Dormiu um sono pesado e sem sonhos, frio e escuro como a morte.
Acordou com pequenas mariposas saindo de sua boca. Gritou tanto que perdeu os sentidos. Quando voltou a si, tudo estava normal. Nem sombra dos insetos. Abriu as janelas. Mesmo que não as visse, sabia que estavam lá. Olhou para o bosque. Sentia que elas a chamavam. Queriam que ela voltasse.
Fechou as janelas e sentou-se em frente ao espelho. Olhou atentamente para seu reflexo. Alguma coisa estava errada, ela sentia. Não era mais a mesma de antes. Abriu a boca e colocou a língua para fora, tentou enxergar o fundo da garganta. Sentia dificuldade de engolir normalmente, como se alguma coisa estivesse presa. Forçou uma tosse e viu mais uma pequena mariposa sair da garganta.
Elas estavam dentro dela. Ela era uma hospedeira. Não tinha mais nada que pudesse fazer, estava perdida. Contra todas as expectativas, isso a acalmou. Agora que não havia nada que pudesse fazer, nada mais importava. Nunca tinha chegado nesse ponto. Antes, quando despertou e viu que ainda estava viva, sentiu esperança. De melhorar. De ser mais forte um dia.
Mas aquilo era diferente. E não dependia dela. Não mais. Abriu a boca e cuspiu quantas mariposas estivessem prontas para sair. Assim que saíam, começavam a voar ao redor da luz acesa. Quando o quarto ficou pequeno para tantos insetos voadores, decidiu sair e levá-los para fora. Para o bosque. Lá era a casa deles. Onde deveriam estar.
Caminhou lentamente, e atrás de si, centenas de mariposas a seguiam voejando, deixando uma miríade de cores e uma sinfonia de asas a bater por onde passavam. A lua cheia iluminava o bosque de forma quase etérea, lançando sombras fantasmagóricas por onde elas passavam.
Quando chegou no ponto exato onde havia matado a mariposa gigante, apenas se deitou e as mariposinhas, uma a uma, foram pousando sobre ela, cobrindo cada centímetro do seu corpo.
Assim que a última assentou, um silêncio profundo tomou o bosque. O terror que Vanessa sentiu na primeira vez deu lugar a uma estranha quietude resignada.
Na manhã seguinte, assim que os primeiros raios de sol iluminaram o bosque, o amontoado de mariposas começou a se dissipar, e uma a uma, foram levantando voo, até que não restou mais nada.
Priscila é cristã, casada com André e mãe de Raquel. Mora no interior de Minas Gerais, ama ler e escreve contos. É integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”. Instagram: @prypereyra_p4

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