Pequena

Karen Valentim Alves

Acabei colocando sabão demais nas uvas verdes. Não sei dizer quanto tempo levei para ver todas as bolhas sumirem na água corrente, enquanto a criança chorava alto agarrada à barra da minha calça. É um choro que distorce o tempo.

— Quer uva! Dá uva!

— A mamãe tá tirando o bichinho da uva. Espera, tá?

Ela soltou um berro estrondoso. Tudo isso por causa daquela palavra, a segunda palavra mais odiada pelos pequenos — só perde para o “não”. Mas eles precisam aprender a esperar. Chorar faz parte, eu disse a mim mesma.

Como senti falta do silêncio. Ah, a quietude dos meus antigos domingos… balancei a cabeça. Terminei de lavar as uvas e fui até a mesa, com a pequena soluçando atrás de mim. Ela se acalmou quando encontrou um brinquedo jogado no chão, e aproveitei a brecha para cortar as frutas — cada uma em quatro partes finas e simétricas, para evitar engasgo. Dizem que é coisa de mãe de primeira viagem.

— Aqui, neném! A uva chegou! Vem papar.

Ela nem levantou a cabeça. Sentada no chão, as perninhas abertas em volta do ursinho de plástico que apelidou de Pimpão, aceitou o pedaço sem muita cerimônia. Dois segundos depois, para o meu espanto, cuspiu tudo.

— Não quer uva.

Respirei fundo e tentei de novo. A uva babada acertou meu rosto.

Deus, quando é que isso vai ficar mais fácil? Quando é que as coisas vão acontecer do jeito que eu quero? Oh, Deus… como sou pequena.

Ri de mim mesma, aquele riso que vem para não chorar. Quis tentar só mais uma vez.

— Então dá a uva pra mamãe — apontei para minha boca.

Ela deu uma risadinha e enfiou a mão no pote. Me ofereceu um, três, seis pedaços de uma vez.

— Ei! Espera aí! — falei de boca cheia.

Ela riu mais alto. Depois passou a mãozinha na minha bochecha e fixou os olhos nos meus por um instante.

— Te amo, mamãe.

Foi a primeira vez.

Fiquei paralisada, boquiaberta, e as lágrimas correndo soltas.

Ela pegou o ursinho, levantou e saiu cantarolando como se o tempo não passasse.


Nascida em Brasília, Karen é esposa de Philippe e mãe de Débora e José. Formada em psicologia, gosta de escrever sobre o que nos pode dar esperança. É integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos”. Instagram: @karenalves.autora.

7 respostas para “Pequena”

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