O grande homem

1 Há coisa de um mês, um mês e meio, sei lá, o contínuo parou na minha mesa: “Tem aí um cara te procurando.” Eu estava batendo, justamente, uma das minhas “Confissões” sobre o Piauí. Disse, impulsivamente: “Manda entrar.” Era uma imprudência. Sou uma vítima dos vendedores de enciclopédia. Todos os dias, eles fazem fila na minha porta. Mas quando o contínuo volta, seguia-o um sujeito de chapéu na mão, bigodões, cabeça baixa, exalando humildade.

2 Para mim, humilde é aquele que me chama de “doutor”. Foi o que fez o recém-chegado. Começou assim: “Dr. Nelson, muito prazer, dr. Nelson.” E repetia, trêmulo: “Muita bondade.” Fiz um gesto: “Sente-se.” Olhou, espavorido, para a cadeira. Ainda perguntou: “Posso sentar?” E eu, magnânimo: “Pode.” Sentou-se. A minha experiência jornalística ensinou-me que a humildade traz, em seu ventre, um pedido de dinheiro. E, então, depois de olhar para os lados, o visitante baixa a voz: “Eu sou o milionário paulista.”

3 Vejam vocês. Sempre digo que o “milionário paulista” só é milionário em São Paulo. Quinhentos metros depois da barreira, começa o seu esvaziamento. Quando o Patiño ofereceu, em Lisboa, a sua festa das “Mil e uma noites”, convidou todos os homens ricos do mundo. Pois bem. E tratou o milionário paulista como um assalariado. É que Patiño, com sua fina percepção, descobriu que, fora de São Paulo, não existe o “milionário paulista”.

4 O fato é que eu estava conhecendo uma das personalidades mais singulares da vida brasileira. No fundo, no fundo, sou um pau de arara. Quando minha família saiu de Recife para o Rio, minha mãe teve que empenhar todas as joias. Aí está porque o homem de dinheiro sempre me fascina. E quando disse que já o conhecia de nome, o milionário paulista baixou os olhos, rubro de modéstia. Disse, rodando o chapéu no dedo: “Quem sou eu? Quem sou eu?” E então, tomando coragem, abriu-me a alma: “Dr. Nelson, tenho lido as suas crônicas sobre o Piauí! Que beleza, dr. Nelson, que beleza!”

5 Impressionado, quis saber: “O senhor acha que eu tenho sido justo com o Piauí?” Reagiu com o fervor estilístico do parnasiano: “Não me interessa a justiça. Só me interessa a forma, dr. Nelson, a forma!” Agarrou-me, em espasmos de admiração: “Dr. Nelson, graças ao senhor, tenho dado boas gargalhadas com a miséria do Piauí, do Ceará, de todo o Nordeste.” Protestei: “Não é esta a minha intenção! Pelo amor de Deus!” E repeti: “Juro. Não tive esta intenção.” Mas o outro teimava: “Continue, dr. Nelson. Cada autor precisa de um assunto. O seu assunto é o Piauí.”

6 Era claro o equívoco daquela fatal paixão literária. Tive vontade de dizer-lhe: “Meu caro milionário paulista, sua admiração me compromete.” Mas o visitante já se despedia. Apertou-me a mão: “Milionário paulista, sempre às ordens.” E, como ele ia voltar, naquele dia mesmo, para São Paulo, perguntei-lhe: “Vai de automóvel ou avião?” — Suspirou, resignado: “De taioba.” Assim nos despedimos.

7 Dirão os idiotas da objetividade: “O taioba não existe mais.” É um fato. Hoje, o bonde já nos parece mais antigo do que a charrete de Ben-Hur. Fora de São Paulo, o milionário paulista usa um taioba imaginário, espectral. Mas estejam certos de que, ao desembarcar na capital bandeirante, ele reassume o seu máximo esplendor. Volta a ser o autor da maior epopeia industrial do Brasil e da América Latina. Quando entra na sua garagem particular, cada automóvel vem lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. E, mais tarde, ao entrar no escritório, as telefonistas e datilógrafas perfilam-se, como se ele fosse o próprio Hino Nacional.

8 Mas o que é mesmo que estava dizendo? Já sei. Dizia que o meu diálogo com o milionário paulista não teve testemunhas. Foi uma conversa de alma para alma. Segundo, porém, a minha vizinha gorda e patusca, “tudo se sabe”. As técnicas de informação são de uma eficácia diabólica. O que sussurramos com um sigilo, um mistério, um pudor de túmulo vira notícia e até manchete. E foi o que aconteceu com a nossa palestra informal. Dez minutos depois, sabia-se, em todo o Piauí, das nossas inconfidências. Ainda uma vez, os brios piauienses se eriçaram mais que as cerdas bravas do javali.

9 A imprensa de lá rugiu manchetes assim: “O milionário paulista não perde por esperar” etc. etc. Quero crer que toda indignação é santa. E o brasileiro acredita mais no berro do que no arrulho. Na imprensa de Teresina, cada artigo de fundo era como que um berro impresso. Mas diz a minha vizinha já citada: “Tudo passa.” E eu acreditava que o tempo cicatrizasse a lesão cavada no sentimento do Piauí. Eis senão quando, ontem, recebo um telefonema da cabra vadia. Simplesmente, queria avisar: “Tem um enviado do Piauí pedindo hora no terreno baldio.” Digo: “Aguenta a mão que estou indo.”

10 Quando desembarquei no terreno baldio, vi todos os seus grilos, sapos, pirilampos, gafanhotos, moscas, preás, numa efervescência de sal de frutas. Pela primeira vez, uma figura do Piauí baixava no terreno baldio. A cabra veio correndo: “Olha. O homem traz uma lista de todos os grandes nomes do estado.” Enfiando no bolso o troco do chofer, digo: “Ótimo, ótimo.” Num canto, assinando autógrafo para uma preá, estava o ilustre visitante. Por todo o matagal, rolavam as 12 badaladas da meia-noite, hora que, segundo Machado de Assis, apavora.

11 Saúdo o piauiense, com a mais larga e cálida efusão: “O terreno baldio sente-se honrado de etc. etc.” Quando acabei, o visitante começou: “É uma ilusão pensar que o Piauí não tem ninguém, não deu ninguém.” Num arroubo maior, continua: “Talento há, talento há!” Habilmente, respondo: “Acredito, acredito.” E já o outro abria a pasta, e de lá arrancava ofícios, cópias fotostáticas, o diabo: “Aqui estão as provas! As provas!” O orador ia do sublime ao patético, do patético ao sublime. Num arroubo de fúria, disse: “São Paulo não tem um romance.” Esganiçou-se: “Duvido que me mostrem um romance paulista.” Fez uma pausa para tomar cafezinho e água gelada. Recomeça: “Agora, meus senhores e minhas senhoras, vou ler uma relação dos grandes homens aí da minha terra.”

12 Todos imaginam que ele vai citar Michelangelo, Leonardo da Vinci, Dante, Goethe, Beethoven e outros menores. Os taquígrafos apuraram, vorazmente, as orelhas. E o homem diz os altíssimos nomes: “Deolindo Couto e João Paulo dos Reis Velloso.” Pausa. Vozes pedem, como nos clássicos e nas peladas: “Mais um, mais um.” E prosseguia a lista inesgotável de talentos: “Velloso e Deolindo Couto.” O manancial de inteligência não tinha fim. Ora dizia “Deolindo Couto e Velloso”, ora “Velloso e Deolindo Couto”. Às quatro horas da manhã, foi feita a contagem: a cultura piauiense tinha duzentos Deolindos Couto e duzentos Vellosos. Deolindo, um grande nome da medicina brasileira. E Velloso? Como na ópera, apareceram vendedores do libreto completo da História e Lenda do Velloso. Muito moço, saíra de Teresina para os Estados Unidos. Segundo o Otto Lara Resende, os Estados Unidos estão mil anos na nossa frente. Só imagino a solidão do nosso Velloso dentro dos mil anos. O jovem piauiense entra para a monumental Universidade de Yale. E aconteceu o milagre: embora falando inglês com um sotaque inenarrável, travou uma batalha de morte contra os dez séculos. Foi o primeiro, em tudo, lá em Yale. Os alunos e professores diziam: “O grande brasileiro.”

13 Toda aquela geração universitária o admirou. Soube-se que era do Piauí. E, por causa de Velloso, seus professores e condiscípulos de Yale estão certos de que o Brasil é um vago e secundário subúrbio do Piauí.


Nelson Rodrigues
O Globo, 5/5/1969

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