ALTIVEZ

•

Misael Pulhes

Gritava eu, tremendo de um amor incontido,
extasiado, por aquela mesma terra natal que eu abandonei.
“O Sonho de um Homem Ridículo”

Entardecer. Tudo está quieto, parado, e eu estou só. O tédio arrasta consigo o dia e as cores do firmamento. A noite chega e, então, outra manhã se seguirá. E depois outra e outra. E nada acabará, nunca. Este recanto abandonado no mundo terá sempre as marcas dos dias em que tudo foi diferente e da tragédia que o levou de volta a seu vazio original.

Os primeiros homens se instalaram na praia há muito, muito tempo. Acharam o lugar por acidente. Ficaram pela abundância de peixes, de frutos, pela conveniência. Não houve dia, ao longo de décadas, em que não lhes déssemos prazer e sustento. Deitavam ao anoitecer na areia, admirando as ondas curtas. Tantas vezes, dormiram ali mesmo sob as estrelas, satisfeitos.

Passado um tempo, acharam ter descoberto os segredos da praia, de como dominar-nos. Envaideceram-se. Na madrugada, enchiam os barcos do que dávamos de melhor. Voltavam das vendas no fim do dia. Enriqueceram. Começaram a sair de tempos em tempos, a aparecer só ocasionalmente. Os homens são o que são, altivos. E talvez nunca percebam ou nunca confessem que o que veio depois foi apenas efeito de sua presunção, do seu desprezo.

*

O céu se derrama e aqui se mistura. O mundo é um espelho quando chove. Dias assim nos dão barulho — água no barro, nas árvores, no ferro. Fora isso, é quase tudo mudo.

Na pequena jangada, Tiago paira alheio. Após anos, regressou à praia nesta manhã, depois de prometer nunca mais voltar. No fim da tarde, quando não caía mais uma gota, nem a jangada mexia, ausente que estava o dia de vento, de ondas, de tudo, Tiago levou o barco até a margem, tirou uns peixes, fez fogueira, sentou à beira da praia, e novamente se perdeu nas recordações. Ele se ajoelhou compenetrado, e de um modo inédito e estranho, pregou os olhos em mim.

Tiago aprendeu a nadar quando criança, como os demais. A pescar também. Mas havia nele algo distinto, um quê de reverência. Amava as árvores, a areia, os bichos, mas era – como passaram a lhe chamar — um “homem do mar”. Sua disposição em ficar por horas mergulhando, pescando, passeando com a jangada era natural. Passou a dizer repetidamente que amava o mar. Dia após dia, ano após ano. E foi assim que fiz dele meu preferido.

Ele nasceu numa manhã de chuva, numa das poucas vezes em que os pais retornaram a este canto. Por sua causa passaram a ficar mais e mais. Na juventude, Tiago foi o único que não se mudou para a cidade. Não quis trocar este lugar pelo barulho irritante que dizia sair das ruas acinzentadas. Fossem agora os outros embora, não importava mais. Tiago ficava, o “homem do mar”.

*

De súbito tudo mudou. O instante decisivo foi naquela tarde em que Tiago chegou acompanhado, após uma pequena viagem que fizera com o pai. Ela parecia feliz ao lado dele. Fariam deste, um lugar só deles, e isso bastaria a todos — a eles, a mim, a nós. Eu não estaria mais só, nunca mais. Aqui se fez o paraíso. Assim foi durante o tempo de ouro. Em que o homem amava as águas, e nelas passava o dia pescando, navegando, uma parte do todo. E então nasceu o primeiro filho, e depois, o segundo.

Os filhos nunca aprenderam a nadar, não gostavam. Subiram poucas vezes na jangada para ajudar o pai. Deixavam que fizesse todo o trabalho sozinho. Desprezavam todas as coisas deste lugar. Conheceram o asfalto, os prédios pichados, o barulho irritante das ruas acinzentadas, e voltaram assoberbados. Dentre todos os homens, eles foram os piores. Foram crescendo, se distanciando, amando a cidade. Tiago amava os filhos. Era um homem de família. Como todos, foi se afastando daqui aos poucos, porque eles preferiam a cidade, e Tiago os amava. E tudo foi voltando a ser como era no princípio. Solitário e desprezado, vazio e sem forma. Porque é isso que o homem faz, abandona. É isso que são. Até que algo aconteça e os obrigue a ver que não, que não!

Naquela tarde os filhos consentiram trabalhar no mar. O pai tinha compromissos na cidade. Eles ficaram bem à margem. Nunca aprenderam a nadar. Não amavam nada aqui. Talvez amaldiçoassem aquela tarde de outono, talvez amaldiçoassem a ventania que se deu, as ondas que cresciam. O homem se ensoberbece mesmo diante da morte. Finge para si mesmo não ter medo de nada, mesmo enquanto se esvai. Eu vi a glória deles esmorecer. Senti o seu vigor converter-se em fraqueza, em derrota.

*

— Por que você os levou? Por quê?

Tiago gritava, perdido na imensidão noturna, envolto pelas ondas que dissera amar. Sem saber que era ouvido, sem saber que não estava sozinho. Joguei-o na areia, certo de que ele não voltaria mais. Iria embora na manhã seguinte, para sempre. E uma vez mais este lugar ficaria só, e eu estaria só.

—

Misael é paulista, casado com Carolina e mora em Uberlândia/MG. É cofundador e primeiro vice-presidente do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos” (@saleirocomunidade). Instagram: @misaelpulhes.

Uma resposta para “ALTIVEZ”

  1. Avatar de João Bosco Barreto Jr
    João Bosco Barreto Jr

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *