Eric Malta
Cena 1: Sui Generis
CORO
Do mais alvo sol do meio-dia, nasce a fada de ruivas e repicadas madeixas. Desnuda das vestes mortais, coberta apenas de faixas destinadas a defuntos. Embalsamada de líquido translúcido, olhos de sono e melancolia, reluzentes feito âmbar, coroam os enfeites de seu rosto rosado. Orelhas pontudas de sélfide, corpo esguio de ninfa. Na plataforma dos deuses, seu corpo se estende e se retrai em uma dança no reluzir deste facho estéril. Dentro desta carcaça de perfeição, quem poderá encontrar uma alma humana?
ALQUIMISTA
Tomei de tantos corpos o mais belo e o moldei para minha criação.
CORO
Criação a partir da matéria-prima pré-existente, és um artesão, não um deus.
ALQUIMISTA
E o que fizera Deus no Gênesis, senão tomar da terra, do solo, do barro, a matéria do homem, para moldá-lo?
CORO
Tu usurpas ser como Deus nessa tua obra?
ALQUIMISTA
Não nesta, mas em uma deveras mais elevada. Pois da terra criara o homem, mas do homem criara a mulher. Esta, sim, é a coroa de Sua criação.
CORO
Logo, mais abjeto te fazes como usurpador.
ALQUIMISTA
De forma alguma, sou a imagem e semelhança de meu Criador. Logo, a mim mesmo me fez um criador.
CORO
Usurpa para si a dádiva do Homem-Deus, do Filho?
ALQUIMISTA
De forma alguma; antes, sou um simulacro adotivo do herdeiro legítimo.
CORO
Pródigo filho tu és. De graça adotado, de natureza bastardo.
ALQUIMISTA
Sem blasfêmias. Pois já está feita, de mim, de outra e de outra mais, manifestei à existência este ser de beleza primaz.
CORO
O quão blasfema é tua mão, que agora profana o domínio do divino sem retorno.
ALQUIMISTA
Que haja na minha obra um coração para que sem mim, seu arbítrio se manifeste. E assim, serei mais justo do que Aquele que me fez nesta questão.
CORO
Com isso, sela vossa condenação.
ALQUIMISTA
Me declaro culpado de sua salvação.
CORO
Oh profano criador! Abandonaste a vossa criatura à própria sorte, chamando isto de amor. O que procederá dela agora quando acordar, consumida na terrível condição da liberdade corrompida do ser de carne, filha de um homem, filha de Eva, filha de Adão, filha de Deus!
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Eric é de Anápolis/GO, cristão e internacionalista de formação. Apaixonado por todo tipo de história e de arte, especialmente nos gêneros de fantasia. É integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos” (@saleirocomunidade). Instagram: @eric.malta.jankowski.

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