Arthur Guanaes
31 de novembro de 1978, Moldávia
Pediu-me o terapeuta que relatasse fielmente meus dias.
Arranjando tinta e papel, ordenou que eu registrasse tudo que me ocorreu a cada jornada solar. Tem estado preocupado com minhas elucubrações. Não pertenço, porém, à esquizofrenia, essa ilusão dos doentes. Minha ilusão é sã, embora amalucada. Vê: o são vem primeiro. Estou são, mas me amaluco. É o caso que minha mente é solta demais, e a dita realidade poda suas asas, como fazem às pombas dum jardim real.
Pois é meu dia que quereis? Eu o darei. Antes, pergunto, quem sois? Por que ledes o diário, o que se diz ser o mais profundo dos relatos dum homem? E por que escrevo a vós? Por que não escrevo a mim só, único leitor por direito deste volume, ou ao meu terapeuta, vilânico Faraó? Mas peço a todos que ledes: deixei toda razão, vós que entrais. Não reina aqui vossa limitada lógica. Porquanto o homem que conheceis no cotidiano não é o mesmo que habita este diário. Porque vedes com estes olhos míopes, de Édipo autocegado. Observais as próprias impurezas e os arrancais das órbitas, mas, ó criaturas mortais, ficais ainda mais finitos. Vedes a carcaça podada, mas aqui nestas páginas vos revelo o homem verdadeiro.
Eis meu dia. Acordei antes da alvorada. Pus sobre meu jabuti o arreio, e o cavalguei rio acima até chegar nas extremidades do Everest. Lá, discutiam entre si canibais polinésios e membros duma raça mestiça de yetis e nepaleses. Arrazoavam qual seria a melhor posição para dispor uma mesa de pingue-pongue no cume da montanha. Eu lhes disse que a melhor opção seria despojar da raquete e das bolas, equilibrar a mesa no pico, e ter a gangorra mais alta que já produzira o homem (e os yetis). Celebraram-me todos como grande sábio, reconhecendo meu bom siso e julgamento, pelo que me presentearam com o saco de pão francês com o qual me vistes voltar para a casa, pela hora do almoço.
Daqui posso ouvir vossos narizes se torcerem. Que esperais das páginas dum amalucado? Se é a verdade, porém, que quereis, eu vo-la dou.
Quando voltava da minha jornada aos Himalaias, já não em cima do jabuti, mas dum cavalo, almocei na casa do Ferreirinha a seu convite. E isto todos vós vistes muito bem. Durante a refeição, no entanto, sua senhora, mui bem afeiçoada, tez branca porém não pálida, cabelos escuros de mar profundo, olhos rápidos mas não ansiosos, esta senhora o tempo todo me observou. Quando seu marido dela não curava, esta chicoteava-me com as pérolas que o rei parricida não julgou digno de ter. Ah, mas eu me julguei digno. Porém não os tive, em respeito a Ferreirinha. E de mais não preciso. Quero somente que os olhos de sua senhora me procurem. Já nisto sou satisfeito.
Quão difíceis sois de agradar! Quereis conferir com o Ferreirinha? Ou com sua senhora? E que homem aceitaria essa desforra pacificamente? E que senhora aceitaria a acusação do crime, não cometido, mas somente premeditado? Ora, companheiros, crucificais a Jesus e deixais Barrabás dançar livremente. Tende os olhos fitos em mim. Eu sou o ladrão e salteador a quem deveis prestar atenção.
Vós me dizeis que este homem não condiz com quem vedes. Ora, não são estas as páginas dum amalucado? Por que esperais razão? A vossa razão? Não são as páginas do diário a parte mais íntima da vida dum homem?
Pois me conhecereis mais se digo a real história de quando, semana passada, fui a Marte e conquistei a filha do rei num concurso de malabaristas manetas — no qual tive vantagem por ainda ter as duas mãos; e quanto mais não conhecereis de mim quando eu vos relatar o dia em que derrotei o Adamastor, investindo contra ele ao pegar um vento de popa de 40 nós, num veleiro feito de palitos de picolé com uma vela de saco de pão, e o despedacei em pequenas britinhas? Se eu disser que o Ferreirinha me convidou porque não desconfia da mulher e que sua senhora não me observou porque me considera desprezível, conhecereis mais a Ferreirinha e sua senhora do que a mim.
Estas são as páginas dum são amalucado. Aqui, sim, a senhora do Ferrerinha pensa em mim até agora. Na verdade, aqui, nestas páginas, desejam-me todas! E quero que todas me desejem, menos as feias, estas podem me esquecer. Que as casadas me queiram mais que a seus maridos, e que as solteiras se engalfinhem por minha causa. Pensem as tímidas: ó, quando irá notar-me! E as desenvoltas se descabelem, mendigando migalhas da minha deleitosa presença. Sim, todas me desejam e eu a nenhuma me dou, porque me dou ao respeito.
Aqui, domino desde o Órion ao Largo do Coqueiral. Aqui, Saquarema avizinha a Penha. Piripiri fica entre Juara e Tabaporã. Meus cachorros latem declinado, e os gatos arranham farsi. Todo pássaro é bem-te-vi, porque todos me veem bem.
Ah, páginas minhas. Sois meu campo, meu canvas. Mas sois meras páginas.
Se eu aqui descrevo seus olhos azuis — não, bote aí castanho mel… Se aqui os descrevo… Não se fazem reais, se fazem?
Eu os crio, mas não os vejo.
São sonhos somente. Mentiras, é verdade. Mas mentiras verdadeiras. Lambo a ferida. Feito bicho de pé. Sinto alívio. Não vejo saída senão coçá-lo enquanto posso. Essas páginas são uma grande coceira. A morte é tão certa, e a felicidade tão preguiçosa, que chego à conclusão de que só os psicopatas tiram bicho de pé.
Espero que com tais escritos meu terapeuta me deixe em paz e vá caçar o que fazer.
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Arthur é cristão, casado com Teresinha e brasiliense. Escreve contos (e poemas) e é integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos” (@saleirocomunidade). Instagram: @arthurguanaes.

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