Xisto e o Dragão

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Gabriel Rosa Alves

No sertão nordestino há um dragão, numa pequena cidade chamada Betânia do Piauí. Dizem que ele lá vive há mais tempo do que a chuva teima em não cair. E desde então, deixa todos os moradores a tremer, com siricutico atrás de siricutico e pegando firme com Deus. Mas no meio de tanta terra rachada, arrepios e fé não fingida, um cabra estava determinado a acabar com esse acanhamento todo. Seu nome era José Ribaldo, mas sua família o chamava de Zé, e ele era conhecido na região como Xisto — o motivo é comprido demais para um episódio tão diminuto.

Fato é que numa festa de noivado — e vale dizer que os noivados em Betânia eram um acontecimento — durante a dança final, ouviu-se o ronco do dragão, que morava numa caverna há poucos quilômetros da celebração. Todos começaram a se desesperar, dizendo que seria o fim, ajoelhando e pedindo ajuda aos céus. Xisto não pensou duas vezes, subiu numa mesinha e anunciou que o dragão não viveria muito mais, porque ele mesmo cuidaria de dar um  fim na peste que tanto os afligia. Logo já não se lembravam de noivado algum e a festa era a  celebração de Xisto e sua valentia. Recebeu inúmeros presentes. Dentre eles: um chapéu de couro, um casaco bordado e o revólver mais antigo da cidade.

E partiu determinado a completar sua missão.

A via para a cava era tortuosa. Afinal, não muitos se aventuraram por aqueles ermos. Xisto seguia. Passo a passo. Cantarolava o Rei do Baião. Mas quanto mais se aproximava do repouso da serpe, mais sua mente se punha a refletir, e o seu coração a se afligir. Seus pés como que caminhavam sozinhos. E assim ele seguia. O cheiro de fumaça. O som da respiração do monstro. O tremor das pedras. Xisto fechou os olhos, aproximou-se da entrada da caverna, engatilhou o revólver e fez uma rápida oração. Então pulou e colocou o dragão em sua mira, mas, para a sua surpresa, o dragão se escondeu, gritando.

— Tenha piedade, matador de dragões! O que fiz eu a fim de merecer a tua ira?

— O que fez? Ora! Que tipo de pergunta é essa? E quanto aos terremotos constantes?

— É só minha barriga roncando na hora do almoço.

— E o fogo que voa pelos céus?

— Acontece, de vez em quando, se espirro.

— O barulho infernal durante a noite?

— Vocês também não roncam?

— Ah! E quem precisa de motivos para matar um dragão?

— Não precisamos todos, sempre, de um bom motivo?

—

Gabriel é cristão, filho do Triângulo Mineiro, casado com Thayla, pós-graduado em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira e apaixonado pela Palavra. É idealizador, cofundador e primeiro presidente do Saleiro: comunidade de escritores cristãos (@saleirocomunidade). Instagram: @escritorgabrielrosa. “Xisto e o Dragão” foi publicado originalmente em “Conto um conto por uns contos” (2026), primeiro livro do autor, reproduzido aqui com permissão da editora M.inimalismos.

3 respostas a “Xisto e o Dragão”

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