Misael Pulhes
Vidas Secas dá mesmo um nó na garganta. Dias atrás comecei, enfim, a ler o clássico de Graciliano Ramos. A história de Fabiano e sua família me levou de volta à cidade de Ribeirão Preto, anos atrás. Eu estava sentado esperando a renovação da minha CNH. Na estação de trabalho ao lado, uma senhorinha inclinava-se sobre uma folha de papel sulfite. O funcionário ditava uma frase. Ele recebeu a folha, conferiu e, constrangido, disse: “vou precisar que a senhora tente mais uma vez”. Havia algo de dor no esforço dela. Tentou novamente e não conseguiu. O funcionário instruiu-a a “treinar em casa” e voltar. Ela se foi. Resignada. Muda.
A lembrança é triste e desconfortante. Como se escrever em um país onde há tantos como aquela senhora fosse um ato de soberba e indiferença. E eis um paradoxo: pois o que resta quando a lembrança vem, acompanhada de um senso de impotência, o que resta senão escrever? “Pá escrevê uma boa letra de samba, sentida, humana, a gente tem de sê, em primeiro lugá, narfabeto”, disse, certa vez, Adoniran Barbosa. “A gente tem de sê”, ou tentar ser, sentir. E foi justamente o que Graciliano Ramos fez, ao dar voz à dor de Fabiano — o retirante que lidava melhor com os bichos do que com as gentes. Foi justamente Vidas Secas que fez ecoar os sonhos e medos do filho mais velho — sonhos “contados” só para a cachorrinha Baleia, e mais com gestos do que com palavras.
Alguém precisa dizer, alguém precisa contar e registrar os contos e causos, as dores e desejos de quem não sabe dizê-los. Ser como a Dora, de Central do Brasil, ser como que um amanuense do sonho alheio. É também por isso que se escreve.
Quem sabe um dia aquela senhorinha consiga passar no teste. Quem sabe um dia possa ler Vidas Secas e ver, na dor do outro, a sua. Quem dera ela lesse sua singela história aqui. Quem dera um dia a lesse também o último analfabeto deste país.
(Crônica finalista do Prêmio Off-Flip de 2021, aqui reproduzida com pequenas alterações.)
Misael é paulista, casado com Carolina e mora em Uberlândia/MG. É cofundador e primeiro vice-presidente do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos” (@saleirocomunidade). Instagram: @misaelpulhes.

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