Meiri Sousa
A beleza do céu não me tocou hoje. Não a vi nos ipês em flor, no sorriso da criança sonolenta, ou em qualquer gentileza sutil. O alarme me despertou de um sonho delicioso, deixando um gosto amargo que me impediu de apreciar outros sabores.
O ônibus está cheio, os fones de alguém estão altos o suficiente para serem inúteis, e aquelas conversas barulhentas demais para antes das sete da manhã embaralham os pensamentos. Meus olhos estão míopes, cobertos de frustração, e as pessoas se apertando para passar, me obrigando a ficar na ponta dos pés, apoiada de mal jeito na barra, aumentando a dor na lombar… tudo contribui para essa turvação. Adolescentes indo para escola são exasperantes, o garoto com cabelos nos olhos e as garotas maquiadas demais me aborrecem.
É uma raridade eu tomar café tão cedo, antes de enfrentar minha jornada diária pela busca do pão, e pessoas muito perfumadas misturadas a pessoas com odores ruins criam um festival que quase faz minha fome sumir. Com aquele cheiro doce e azedo; cheiro de desterro. Hoje eu te entendo, Dom Casmurro. Como alguém é capaz de se animar num cenário tão insalubre? Não tenho nenhuma esperança, o trânsito a roubou de mim.
Não há lembrança que me faça contar minhas bênçãos. De fato, consigo contar tudo, menos as bênçãos.
Lembro-me de, quando adolescente, voltar da escola e ouvir uma senhora reclamar, enfurecida, da volta às aulas, de como o transporte ficava cheio e o trânsito, lento, com tantos estudantes. Senti-me ofendida na época, como uma espinha incômoda na ponta do nariz. Hoje eu a abraçaria, pois sinto saudades das férias escolares e do falso conforto que a ausência desses estudantes proporciona.
Penso nas melhores palavras para uma carta de demissão. Na alegria de voltar para casa e dormir o resto da semana. Fico deliciada com a ideia de não olhar planilhas, não ouvir a reclamação do cobrador, ou o diário “pessoal, dá um passinho pra trás, cabe mais”. E ainda não são oito da manhã. Minha alma está gasta e o corpo definitivamente não está melhor.
Mas até o fim do dia terei esquecido disso. Tomarei uma bebida quente e, a despeito da saudade do trabalho remoto, ficarei feliz com algo pequeno e trivial, como uma bala de banana ou uma piada ruim. Lembrarei da minha vocação e do custo de persegui-la. Lerei um bom texto, ou receberei uma boa notícia de uma amiga. Quem sabe os ipês em flor voltem a ser belos, talvez eu sorria de volta para uma criança. Chegarei em casa, abraçarei meu marido e sentirei aquele seu cheiro amadeirado, aconchegante. Cheiro de lar. Vislumbrarei que, mesmo gemendo, a criação é bela, e minha pequena e enfadonha rotina não é das piores que já tive. Começarei a contar minhas bençãos e o céu me tocará.
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Meiriellen Sousa é paulista, casada com Pedro e mora em São Paulo/SP. É integrante do “Saleiro: comunidade de escritores cristãos” (@saleirocomunidade).

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